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Full text of "A Profissão do Historiador"

A Profissão de Historiador 
Simon Schwartzman 

Publicado em Simon's Blog, 12/1/2012 

Respondendo a uma matéria do jornal Folha de São Paulo sobre a 
regulamentação da profissão de historiador pelo Senado Federal, o presidente da 
Associação Nacional de História, Benito Bisso Schmidt, esclarece que "em 
nenhum momento este projeto veda que pessoas com outras formações, ou sem 
formação alguma, escrevam sobre o passado e elaborem narrativas históricas. 
Apenas estabelece que as instituições onde se realiza o ensino e a pesquisa de 
História contem com historiadores profissionais em seus quadros". E acrescenta: 
"Da mesma maneira, a regulamentação pode evitar que continuem a se verificar, 
nos estabelecimentos de diversos níveis de ensino, situações como a de o 
professor de História ser obrigado a lecionar Geografia, Sociologia, Educação 
Artística, entre outras disciplinas, sem ter formação específica para isso (e vice- 
versa)". 

Se trata simplesmente, portanto, de reserva de mercado para portadores de 
diploma de história, justificada pela ideia de que, ao longo de seus estudos, os 
diplomados em história "desenvolvem habilidades específicas como a crítica 
documental e historiográfica e a aquisição de conhecimentos teóricos, 
metodológicos e técnicos imprescindíveis à investigação científica do passado". 
Sem riscos, portanto, para cientistas políticos que escrevem sobre o Império 
como José Murilo de Carvalho, embora ainda persista a dúvida de se ele precisará 
agora de carteirinha de historiador para pesquisar nos arquivos públicos 
brasileiros. 

Como a área de história (da mesma maneira que as de sociologia, ciência política, 
economia, filosofia e tantas outras) tem muitas correntes que se contradizem e 
não aceitam os métodos de trabalho das outras, e dada ainda a má qualidade de 
muitos de nossos cursos universitários de ciências sociais e humanidades, é 
difícil aceitar que todos os diplomados em história tenham mesmo este 
instrumental teórico e técnico que deveriam ter. 



A questão mais profunda, no entanto, é que, ao contrário do que normalmente se 
supõe no Brasil, áreas de conhecimento e profissões não são a mesma coisa. 
Profissões são atividades que lidam com o público e que em alguns casos, quando 
mal exercidas, podem causar dano à vida e à propriedade das pessoas. Áreas de 
conhecimento são tradições de trabalho cujas fronteiras estão sempre em 
movimento, e que não podem nem devem ser reguladas por lei e ser objeto de 
monopólios corporativos. Para tomar o exemplo mais clássico, não existe uma 
ciência chamada "medicina", mas disciplinas como fisiologia, anatomia, química, 
farmacologia, psicologia, genética, biologia molecular, radiologia e tantas outras, 
por um lado; e a profissão médica por outra, regulamentada por lei, e que inclui, 
por exemplo, a homeopatia, que a maior parte dos cientistas não consideram ter 
base científica. A delimitação de quem pode ou não exercer a medicina, o direito 
e a engenharia, que são as profissões mais tradicionais, tem sido estabelecida ao 
longo do tempo por disputas políticas entre diferentes grupos, e são bastante 
arbitrárias, como atestam as disputas sobre a atuação profissional de 
enfermeiros, psicanalistas, optometristas e fisioterapeutas, que hoje giram em 
torno da possível aprovação da legislação sobre o "ato médico", que pode 
consolidar o poder dos médicos sobre todas as demais profissões de saúde no 
Brasil, que em outros países são reconhecidas e valorizadas. Se, por um lado, a 
sociedade se protege quando sabe que charlatães estão impedidos de tratar, 
advogar e construir obras, ela sofre quando as corporações profissionais abusam 
de seus poderes, ao mesmo tempo em que os diplomas nem sempre garantem o 
que prometem. A melhor maneira de garantir os interesses da sociedade é 
limitar ao máximo os monopólios profissionais, que devem ficar estritos a 
atividades que implicam altos riscos para o público, exigindo controles de 
competência e qualidade que não se limitem ao reconhecimento burocrático de 
diplomas. 

Será que a história, que é uma disciplina de estudos, se qualifica como uma 
profissão no Brasil? Os dados da amostra do Censo Demográfico de 2010 
indicam que haviam cerca de 75 mil pessoas formadas em história e arqueologia, 
das quais somente 57 mil trabalhavam. Destas, metade tinha atividade na área de 
educação, e somente 1.400 trabalhavam em atividades profissionais, científicas e 
técnicas, ou seja, presumivelmente, como historiadores profissionais; e 



certamente existem muitas pessoas com diploma de sociólogo, jornalista, 
economista, cientista político ou sem diploma nenhum pesquisando arquivos e 
produzindo trabalhos interessantes (a Plataforma Lattes, do CNPq, lista 5500 
pesquisadores em história no país em 2010, sem dizer, no entanto, em que 
cursos se formaram). Isto se compara com a estimativa de que o Brasil 
necessitaria de cerca de 75 mil professores de história para atender às atuais 
necessidades dos currículos do ensino fundamental e médio. 

Pessoas com Diploma Superior de História (Amostra do Censo Demográfico de 2010) 



Atividade 


Total 


Percentagetr 


EDUCAÇÃO 


29,155 


50.4 


ADMINISTRAÇÃO PUBLICA, DEFESA E SEGURIDADE SOCIAL 


9,794 


16.9 


COMERCIO, REPARAÇÃO DE VEÍCULOS AUTOMOTORES E MOTOCICLETAS 


3,959 


6.9 


ATIVIDADES MAL DEFINIDAS 


2,194 


3.8 


INDUSTRIAS DE TRANSFORMAÇÃO 


1,743 


3.0 


ATIVIDADES PROFISSIONAIS, CIENTIFICAS E TÉCNICAS 


1,392 


2.4 


SAÚDE HUMANA E SERVIÇOS SOCIAIS 


1,387 


2.4 


ARTES, CULTURA, ESPORTE E RECREAÇÃO 


1,202 


2.1 


ATIVIDADES FINANCEIRAS, DE SEGUROS E SERVIÇOS RELACIONADOS 


1,157 


2.0 


INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO 


962 


1.7 


ATIVIDADES ADMINISTRATIVAS E SERVIÇOS COMPLEMENTARES 


922 


1.6 


OUTRAS ATIVIDADES DE SERVIÇOS 


857 


1.5 


AGRICULTURA, PECUÁRIA, PRODUÇÃO FLORESTAL, PESCA E AQUACULTURA 


762 


1.3 


TRANSPORTE, ARMAZENAGEM E CORREIO 


626 


1.1 


ALOJAMENTO E ALIMENTAÇÃO 


462 


0.8 


ATIVIDADES IMOBILIÁRIAS 


351 


0.6 


CONSTRUÇÃO 


317 


0.6 


SERVIÇOS DOMÉSTICOS 


213 


0.4 


AGUA, ESGOTO, ATIVIDADES DE GESTÃO DE RESÍDUOS E DESCONTAMINAÇÃO 


153 


0.3 


INDUSTRIAS EXTRATIVAS 


112 


0.2 


ELETRICIDADEEGAS 


105 


0.2 


TOTAL 


57,836 


100.0 


Sem atividade económica 


17,458 
75,304 





Temos um problema sério de falta de professores, não só em historia, mas em 
quase todas as áreas. Neste quadro, não faz nenhum sentido proibir que pessoas 
formadas em disciplinas afins ensinem história nas escolas, como não faz sentido 
impedir que pessoas formadas em história ensinem em matérias afins como 
geografia ou sociologia. Ser professor da educação básica e pesquisador 
profissional são coisas muito diferentes, e ainda bem que é assim, porque senão 
os problemas de nossa educação, que já são extremamente sérios, se tornariam 
totalmente insolúveis.